segunda-feira, abril 27

Angola, a terra dos embondeiros | ANGOLA

Foi no fim de 2009 que tive o prazer de conhecer esta terra que, como eu, se faz de extremos. Tinha 14 anos quando a minha mãe recebeu uma proposta para ir trabalhar para Angola, mais concretamente Luanda, e “maluca” como é, aceitou. Meses mais tarde, e bastantes lágrimas depois, lá embarquei nesta aventura pela terra dos embondeiros. 


Na minha visão de “pita” de 14 anos era praticamente o fim do mundo ir para um país a quase 8h de distância de avião das minhas amigas, das minhas rotinas e dos meus solos seguros. Foi certamente por isso que passei o ano que lá estive a azucrinar a cabeça dos meus, pacientes, pais para me mandarem de volta no primeiro avião para Lisboa; resultou. Na minha visão de “pessoa de 20 anos” (sim, aos 14 somos "pitas" mas aos 20 somos velhos de mais para sermos adolescentes e novos de mais para sermos adultos) foi das maiores e melhores experiências que já tive, e se tivesse ido com outro espírito tinha aproveitado o triplo.

Vista Hotel Presidente, Baía de Luanda
O que vos posso dizer sobre a minha estadia em terras de cor de tijolo é que aquele país é mesmo um país de extremos. Para começar ou se gosta ou não se gosta! Se fores com um espírito de aventura e de aceitação vais adorar a experiência, mas se fores com as “manias europeias” e o belo do salto alto então não passas do aeroporto.
A pobreza é evidente, porque é daquelas coisas que não se conseguem mascarar, mas ao invés de se sentarem no passeio de mão esticada agarram em qualquer coisa e, talvez vender não seja o termo, impingem. Acredita, se não encontrares em lojas o que procuras, vais encontrar na rua! No início vão-te pedir uma exorbitância, mas aí a táctica do meu pai não falha: usa a frase “sou pula mas sou angolano” e regateia até encontrares um preço justo. Compreende-os! É das cidades mais caras do mundo para uma população que não ganha para comer, mas que se mantém humilde e tem vergonha de comer na mesma mesa com um branco, num dos poucos centros comerciais que havia na altura. 




Quando está calor não há ar condicionado que nos valha, e livra-te de abrir a janela, caso contrário és devorada(o) por mosquitos. Já quando decide chover o melhor é procurares a arca de Noé e esperares até o dilúvio passar. Luanda literalmente parava quando chovia!  
Não posso falar de Luanda sem mencionar a Escola Portuguesa de Luanda onde concluí o 10º ano do curso de Línguas e Humanidades. A verdade é que o sistema de educação público em angola, embora não possa falar com grande conhecimento de causa, é muito limitado, mas se tiverem oportunidade de colocar os vossos filhos na Escola Portuguesa certamente não se irão arrepender. Os profissionais são excepcionais, os alunos são exemplares e as instalações fazem inveja a muitas escolas em Portugal. Aqui fica o meu mais sentido Obrigada a todos os professores, colegas e amigos com quem tive oportunidade de partilhar os melhores momentos e as maiores frustrações enquanto “pita” de 14 anos.  
Escola Portuguesa de Luanda
As marcas da guerra ainda estão presentes tanto nas pessoas como nos edifícios, e é por isso que ainda lhe chamo a terra dos palácios abandonados e dos paraísos perdidos. Posto isto, se tiveres oportunidade de voar até Angola não te fiques só pela Ilha de Luanda e pela Marginal, ícones na altura, mas com as melhorias que foram feitas já ouvi dizer que estão ainda mais bonitas. Se gostas de andar de barco vai até ao Mussulo, se não, viaja por terra até Sangano, onde podes comer um maravilhoso arroz de Lagosta, ou um Linguado que vem à posta (imagina só), Benguela, Barra do Dande, Barra do Kwanza, entre outros.  
Paraísos Perdidos, Benguela

Miradouro da Lua, Barra do Kwanza

Memórias da Guerra, Benguela

Palácio Abandonado, Benguela

No momento do regresso, e enquanto vais parando e parando no seu característico trânsito, espero que te lembres dela como eu: a terra dos embondeiros, das pessoas que chamavam pai grande ao meu pai e mais velha à minha mãe, dos azuis e brancos, da poeira no ar, do cheiro a terra molhada e do pôr-do-sol da cor das mangas que se compravam na rua, sem esquecer de pedir as quebra.


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A 4039km de distância e com muita saudade,
Filipa

P.S.: Segue a nova novela da TVI "A Única Mulher"!